A Cidade e o Már(io)

julho 17, 2015 1 comentário

Coluna - A cidade e o Már(io)

 

 

A FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, já é uma adolescente. Completou 13 anos nesta edição de 2015 (01.07 a 05.07), então não precisamos mais esconder dela duas coisas que talvez a chateiem um pouco. Em primeiro lugar, ela causa bem e mal à cidade que a acolhe. Em segundo lugar, sua existência se baseia em princípios de mercado; portanto, é melhor ela se acostumar com o fato de que não conseguirá agradar a todos enquanto existir.

Causa bem a Paraty porque a Associação Casa Azul, a organizadora da FLIP, é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) com excelentes projetos educativos que visam à valorização da cultura local e à formação de leitores, algo essencial para uma das cidades mais violentas do Rio de Janeiro, onde evidentemente os jovens são a população mais afetada. Mas também causa um mal indireto porque, entre outros motivos, atrai mais pessoas do que uma cidade com saneamento básico deficitário consegue comportar e incentiva muitos moradores a se dedicarem ao turismo, o que a longo prazo destrói outras culturas seculares como a pesca e a agricultura.

Quanto aos princípios de mercado, é claro que as editoras que participam da festa estão lá com o objetivo de vender seus lançamentos – frequentemente livros de autores cuja fama precede a literatura – o que, obviamente, tira um pouco o foco do homenageado da festa, aquele por quem todos os brindes deveriam ser feitos. Apesar disso tudo, a cidade é viva. E ninguém melhor que o homenageado deste ano para nos ensinar algumas coisas.

O escritor Mário de Andrade (1893-1945) era apaixonado pelas contradições da cidade em que vivia. Por isso duplicava a imagem dela em suas obras, como em um espelho, e mostrava-a a si mesma para que ela reconhecesse sua cultura e sua mestiçagem, da qual também ele fazia parte. Para tanto, andar pela cidade, conhecer a cidade era essencial. E essa lição também pode ser aplicada a Paraty.

Quem vai à festa e se restringe à programação principal corre o risco de, às vezes, cochilar durante alguma palestra e não perceber que as cidades são as pessoas. São elas que jogam capoeira no meio da praça, recitam poesias sobre o local onde vivem e organizam encontros de tradições como as cirandas e os cacuriás, só para citar alguns exemplos. E como a programação oficial não dá conta de abarcar toda essa diversidade, é seguindo o exemplo de Mário e caminhando pela cidade que encontramos a verdadeira festa e, aqui e ali, também um pouco do autor.

A Casa da Cultura discutia literatura, a Casa Cais apresentava poesias do homenageado musicadas e cantadas por Adriana Calcanhoto, que também lia correspondências do escritor trocadas com poetas como Carlos Drummond de Andrade. O SESC de Paraty, com duas unidades abertas depois de trabalhos primorosos de restauro em casas históricas, organizava eventos de música, dança, teatro, cinema e, claro, literatura, lotando pequenas salas com escritores como Ana Luísa Escorel, que durante anos se dedicou a viabilizar o projeto de escrever e editar um livro com as correspondências entre Mário e seu “tio” Pio Lourenço, proprietário da chácara onde o autor escreveu Macunaíma.

O que se tira das andanças pela cidade, portanto, é que a festa não está nas pousadas caras ou na programação esquizofrênica das mesas principais – que até teve bons momentos neste ano. A festa está espalhada pela cidade, convidando as pessoas que assim como Mário caminham pelo simples gosto de caminhar e, quem sabe, encontrar pequenas alegrias nas poças de água refletindo as luzes da cidade, a lua, o céu, as pessoas.

É por isso que, como no verso da música A Cidade e o Mar, de Toquinho, a gente “viaja e não sai da cidade”. E quando volta para a rotina se vê atirando redes ao chão todo asfaltado, tentando pescar na memória os momentos daqueles dias em que a vida e a obra de alguém que dedicou sua existência à cultura foram nosso principal alimento.

Danilo Gonçalves

Anúncios

Saudade é flor de pedra

agosto 10, 2014 24 comentários

 

Conto - Saudade é flor de pedra (2)

Rosa tinha 17 anos quando a última estrela caiu e apagou a noite de vez. Poucos dias antes, em noite enevoada, a lua cheia de luz forçava espaço no silêncio do céu que ela queria.

Quis o destino que Rosa não tivesse raízes profundas na terra do chão nem em nada onde deitasse a mão. Se fiava, olhava os céus pela janela e misturava o fio do pensamento com a matéria etérea de todas as nuvens que os homens jamais teriam a chance de tocar. Se cozia, era o fogo da madeira vermelha que a distraía a crepitar segredos que lhe chegavam esfumaçados: saudade é flor de pedra. Desentendia. E se chovia, também dela caíam lágrimas de felicidade tonta, só de ver os pingos de chuva a brilhar apenas porque o sol ainda não tinha consentido licença às nuvens escuras.

Sentia que era mais do céu do que da terra. Olhar o céu era das poucas alegrias de Rosa. Ralhavam com ela, qualquer hora caía no barranco do mundo. E se caísse? Pra onde ia? – punha-se a imaginar.

Um dia, Rosa, a décima sétima filha de seus pais e da terra que não queria sua, a décima a vingar, espreguiçou-se na noite de verão e pôs-se cá embaixo a olhar lá para o alto, onde o chão devia ser o teto.

Nuvens movediças rolavam sem pressa seus novelos suspensos no ar. O vento descia e mexia com o mato alto e com seus cabelos no topo da fronte, como num carinho.

Quem soprou o primeiro vento? – perguntava de si para si.

Pois nesse dia, nessa noite, algo assustador aconteceu. Enquanto a lua aguava todas as coisas de quando em quando, a fugir das nuvens, e no céu reinava sozinha a esconder estrelas com seu clarão, Rosa percebeu com espanto e tristeza que eram as estrelas que davam para cair no buraco do mundo e desfazerem-se no escuro. Um após o outro, o brilho das poucas estrelas riscava o céu num fulgor que fazia seus olhos piscarem e, já ao abrir, não encontravam mais rasto algum a cintilar no céu. De medo, de dor e desatino, Rosa correu para casa e enfiou-se na cama a pedir que a visão de ainda agora fosse sonho. Não era.

Curioso por saber do que se tratava o choro da filha, ouviu dela que as estrelas morreriam todas àquela noite, a julgar pela quantidade das que estavam a riscar o céu e desaparecer. Perguntou a ele algo sobre Deus, ao que o pai apenas respondeu que não bulisse com Deus, pois Ele estava no silêncio dos céus.

Para ela Deus estava era em silêncio, talvez até a divertir-se com o fim das estrelas, a mudar o mundo conforme seu gosto.

Desesperada com aquele destino obscuro, correu para fora à espera de que ainda houvesse muitas estrelas por trás das nuvens, e deitada novamente no mato, a chorar adormeceu.

Na manhã seguinte recolheram-na a casa a tremer de febre. Colocaram-na em sua cama e os dias seguintes trouxeram sonos intranquilos entrecortados por delírios.

Sua mãe falava-lhe ao ouvido que ainda havia muitas estrelas no céu. Ficasse boa e logo veria. Era verdade. Apesar de continuarem caindo como ela mesma jamais tinha visto, havia muitas estrelas no céu.

O médico veio da distância uma vez e outra mais, quando finalmente disse aos pais de Rosa que eles não haviam criado a menina para eles e sim para Deus.

O padre rezou sua litania e disse que parecia que até mesmo São Lourenço se compadecia deles a enviar suas lágrimas através das constelações na noite daquele dia que havia sido em sua homenagem.

Seu irmão Joaquim a tudo assistia agarrado à porta do quarto onde os irmãos já não dormiam para não ficarem doentes também. Só muitos anos mais tarde entenderia o que eram as Lágrimas de São Lourenço.

Por fim, em uma certa noite minguante, apenas uma estrela cadente desceu à terra. São Lourenço certamente secara as lágrimas. Tinha já uma nova companhia nos céus.

 

Por: Danilo Gonçalves
No dia de São Lourenço

19 de fevereiro de 1878

fevereiro 18, 2014 6 comentários
Largo da Memória em 1862

Largo da Memória em 1862

Aconteceu no dia 19 de fevereiro de 1878. E só pela coincidência da data volto a falar dessa história. Pela data e porque sempre lembro da notícia quando, assim como no final de semana, passo pela ladeira da memória.

O jornal A Província de São Paulo, que depois passou a se chamar O Estado de São Paulo, registrou o acontecimento e, num esforço de reportagem inédito até então, publicou a foto acima – ainda que ela houvesse sido “batida” dezesseis anos antes do lugar virar notícia – para ilustrar o texto com o local onde se passara a fatalidade.

Talvez tudo tenha começado como uma piada. Ou então talvez tenha sido alguma simpatia que deu certo. Não se sabe. O certo é que a região era conhecida como Largo do piques, e nada mais. No entanto, após a construção de uma fonte e de um obelisco de onde se podia assistir ao passar das águas do Anhangabaú, o lugar foi mudando de nome e ganhou fama como Largo da memória, onde se chegava através da Ladeira da memória. Diziam que quem subisse por ela e bebesse a água da fonte que havia no largo, nunca se esqueceria do que estivesse pensando naquele momento. E foi assim que casais apaixonados passaram a subir a ladeira da memória para beberem juntos a mesma água e jamais esquecerem seu grande amor.

Não se sabe por que, mas, como um antídoto, o inverso também passou de absurdo a factível: se a pessoa bebesse a água da fonte e descesse a Ladeira da memória pensando num amor passado, ele jamais seria lembrado novamente. Foi esse o caso que levou, conforme o dizer do jornalista, “o jovem senhor Alberto Olegário dos Santos ao imprudente movimento na fatídica noite”.

Abandonado por dona Domitila, com quem há poucas semanas subira a mesma ladeira entre juras de amor, e decepcionado principalmente consigo mesmo, por ter acreditado não haver fim para algo que agora cogitava sequer ter existido (o amor dela por ele), decidiu descer a ladeira pensando em seu benzinho pela última vez.

Nunca mais suas mãos geladas, nunca mais sua risada infantil, nunca mais os beijos (Meu Deus, os beijos) que ela fingia não permitir: nunca mais. Se tudo desse certo não se lembraria nem mesmo do nome, nem mesmo da existência de uma tal Domitila. Seus amigos perguntariam “O que se passou com Domitila?” e ele responderia pasmo: “Com quem?”. E todos, exceto ele, trocariam olhares cúmplices e saberiam que ele tinha descido a Ladeira da memória.

Mas nunca mais? Nunca mais seu pescoço, sua voz, seus olhos sorrindo? Tenho certeza que a pergunta flutuou por um tempo em sua cabeça e afundou até encontrar seu coração.

Soube-se que ele chegou ao Largo do piques no final da tarde quente, conforme informou o português que lhe vendeu a garrafa de cachaça que, enxugada pela metade, deu a ele a coragem de ziguezaguear a subida da ladeira, maldizendo todos os casais que dificultavam seu caminho.

Beberia a água e desceria a ladeira? Talvez sim, mas sem testemunhas. No topo dela, sentado à beira do chafariz, enobrecendo seu orgulho ferido, “esperou pela hora morta da noite”, como escreveu o repórter, “para que ninguém visse a confissão de seu fracasso como amante”.

No entanto, não se sabe se pelo escuro da noite, por descuido, por um desmaio provocado pelo consumo do litro de cachaça, ou pela indecisão momentânea de beber ou não aquela água do esquecimento, emborcou na fonte e de lá só voltou a sair quando foi retirado pela polícia, já sem vida.

Vira e mexe, quando lembro dessa história, recorro à cópia da reportagem para relembrar seu nome. Mas não tenho dúvida que, cumprindo a promessa da subida da ladeira, jamais se esqueceu dele a senhorita Domitila, que confessou ao jornalista só ter se afastado do namorado porque queria ter certeza – doença dos incrédulos – que o amor deles era mesmo verdadeiro.

Por: Danilo Gonçalves

Cinema no Velho Chico

Município de Pedras de Maria da Cruz - MG

Município de Pedras de Maria da Cruz – MG

Depois de diferentes expedições pelo Rio São Francisco, cineastas e pesquisadores acadêmicos testemunham as transformações drásticas de um rio que não está para peixes

 

Texto: Camila Fróis/ Fotos: André Fossati
* Reportagem reproduzida do portal O ECO

 

“O São Francisco era fundo, que era até escuro, tinha lugar de 20 metros de fundura. Naquele tempo, por falta do conhecimento, desmataram as laterais do rio, derrubando as beiradas. Agora num tem mais as raízes pra segurar a terra e foi tudo desabando e desabando e desabando e entupindo, desabando e entupindo, até ficar assim. Hoje tem lugar que você pode atravessar de pé no rio. Moço, isso aqui ’diferençou’ foi muito”.  As memórias do sanfoneiro Amarante dos Passos, natural da pequena cidade Manga, no sertão mineiro, foram parar na telona em uma das sessões da última edição do “Cinema no rio”, um projeto que há oito anos leva a sétima arte para as comunidades às margens do Velho Chico.

 

No mesmo vídeo exibido ali na beira d’água, outro morador bem mais jovem, Florisvaldo dos Santos, de cerca de 30 anos, também testemunhava transformações rápidas no rio da sua infância. “Quando era criança, a gente só brincava era no rio, banhava na praia, não tinha outra coisa. (…) A gente montava na canoa e ia navegando e os peixes pulando. Ave Maria, era gostoso demais. O rio era bom porque tinha fartura”.

 

Sob a luz da lua, com a brisa do São Francisco no lugar do ar condicionado e geralmente com um casario secular empoeirado como cenário, as sessões do projeto já foram prestigiadas por mais de 200 mil espectadores em povoados desde a nascente até a foz do Velho Chico. Diante da tela, os ribeirinhos prestigiam os filmes de animação, longas e curtas-metragens ficcionais e viajam no tempo ouvindo as próprias histórias sobre o São Francisco, registradas em mini-documentários gravados ali mesmo. Nos depoimentos, a nostalgia de grandes pescarias, da paisagem cercada por uma mata densa, das viagens em navios a vapor e das noites animadas por rodas de batuque iluminadas pelas lamparinas de azeite. As memórias são muitas e hoje estão registradas em um acervo de mais de 70 vídeos produzidos desde as primeiras expedições.

 

Quando idealizou o projeto, o produtor Inácio Neves já organizava sessões de cinema ao ar livre nas praças de Belo Horizonte, sua cidade natal. Resolveu, então, ir mais longe. Hoje, ele coordena a expedição que chega até vilas de pescadores, comunidades quilombolas e pequenos povoados do Velho Chico, muito distantes das salas de exibição dos shopping centers. Em cada vilarejo ou cidade por onde passa, nos trechos entre Minas Gerais até Alagoas, a equipe do projeto realiza oficinas de fotografia, pesquisas culturais e grava os depoimentos como os do senhor Amarante, que assiste da janela de casa a deterioração inexorável de um rio que já foi a grande fonte de subsistência de sua comunidade.

 

À noite, os moradores, cineastas, jornalistas e antropólogos se reúnem todos em uma só plateia. Em vez de peças pesadas usadas em projeções convencionais, a tela  é inflável, muito mais fácil de montar e desmontar. Um grande amontoado de lona se transforma em uma tela de cinema de 10 m x 7,5 m em apenas 15 minutos. A pipoca é grátis e a fila é de perder de vista.

CINEMA NO RIO SAO FRANCISCO 8 EDICAO 09_2013 FOTO: ANDRE FOSSATI/CONFLUENCIA

Além de promover o acesso às produções cinematográficas nacionais menos comerciais, Inácio explica que, hoje, a proposta da expedição é também valorizar as tradições regionais, o folclore, a musicalidade e todas as formas de cultura popular ribeirinha através do estímulo a apresentações locais antes do cinema. Além disso, a ideia é trazer o foco para o São Francisco. “A gente viaja pelo rio, então não tem como ignorar o drama pelo qual ele está passando. Estamos entrevistando as pessoas, questionando sobre os problemas do rio e colocando isso na tela”.

 

Os peixes acabaram

913692_512016862166767_565439683_o

Nos vídeos, o tema do fim dos peixes não escapa de nenhum depoimento. Em Matias Cardoso, Luis Mario Cardoso lembra da época dos barcos transbordando depois das pescarias. “Tinha uns que pescavam mais. Chegavam aqui com a canoa cheia de peixe, mas tinha muito peixe mesmo. Juntava todo mundo da comunidade pra ir escamando, partindo limpando e salgando o peixe pra num perder…. Hoje pescar um peixe aí é coisa trabalhosa.”, conta.  Em Manga, Florisvaldo ressaltava não só a quantidade, mas o tamanho dos peixes fisgados. “Era surubim, dourado, curimatá. Eram peixes grandes, peixe de 10 kg, até de 20 kg a gente já pegou. Hoje em dia isso não tem mais. Você se aventura a descer o rio pra pegar o seu sustento, mas pode voltar sem nada”, explica o morador. “A gente acabou com a gente mesmo, porque a nossa maior riqueza era o rio”, ele emenda reflexivo.

 

Florisvaldo tem razão quando sugere que o modo de ocupação das margens do rio pelos próprios ribeirinhos, sem a noção dos conceitos de sustentabilidade, colaborou com a sua deterioração. A mata ciliar era desmatada para a venda da lenha para os navios a vapor e também para o plantio de lavouras. Além disso, o período da piracema não era respeitado pelos pescadores e a pesca predatória foi estimulada pelo próprio governo.

 

Os fatores preponderantes para o esgotamento dos estoques pesqueiros e a redução significativa da vazão do rio, porém, tem a ver com projetos de grande impacto empreendidos pelo poder público. O engenheiro de pesca Eduardo Mota, hoje trabalha para a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco – CODEVASF, que cuida dos projetos de revitalização do rio. Segundo ele, as barragens construídas ao longo do São Francisco (Sobradinho, Xingó, Itaparica, Paulo Afonso e Três Marias)  comprometeram significativamente as condições de reprodução dos peixes e aceleraram o assoreamento do rio. Para o engenheiro, se a usina de Sobradinho tivesse sido projetada com escada ou elevadores de peixes, o impacto seria menor. Hoje, a solução paliativa é investir na reprodução artificial. De acordo com o engenheiro, há 30 anos a Codevasf investe em tecnologias para propiciar a reprodução não só de espécies exóticas, como a tilápia, mas também de peixes nativas. Ainda assim, ele explica que é impossível repor os estoques naturais. “O médio São Francisco já foi uma das regiões mais piscosas do país”, ele lembra.

 

No livro “Flora das Caatingas do São Francisco”, o professor da Univasf, José Siqueira, que coordenou o trabalho de 100 especialistas que assinam a publicação, discorre sobre os ciclos econômicos responsáveis pela atual situação do rio. No capítulo “O inexorável fim do São Francisco”, ele aponta a repetição de políticas públicas desastrosas na bacia do rio, ressaltando as consequências da construção de grande porte sem tecnologias de minimização de impacto ao longo do rio. Ele explica que, apesar de serem responsáveis por 15% de toda energia consumida no Brasil, as barragens do São Francisco alteraram o fluxo de peixes do rio e a qualidade das águas, além de atingir diretamente várias comunidades inundadas.

 

“Antes da barragem de Sobradinho havia várias lagoas temporárias, altamente piscosas na região. Quase todas desapareceram, assim como povoados e cidades inteiras como Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado e Sobradinho”, afirma o autor.  Ele confirma que devido à falta de um melhor estudo dos ecossistemas locais, o empreendimento inviabilizou a reprodução de espécies migradoras, como defende Eduardo Mota. Além do depoimento dos ribeirinhos, estudos científicos também apontam as consequências desse processo. Segundo Siqueira, a análise de dados de peixes coletados há quase 30 anos já indicava, que, no trecho entre a Represa de Sobradinho e o Oceano Atlântico, não havia renovação de peixes de piracema, pois quase não existiam lagoas marginais.

 

Hoje, na tradicional Praça do Peixe em Petrolina (PE), a 700 m da margem do Rio São Francisco ( que já registrou 158 diferentes espécies de peixes), espécies amazônicas do Pará estão entre as mais comercializadas, devido a falta de peixes locais.  “Isso simboliza a falência completa da economia pesqueira da região”, enfatiza.

 

Município de Itacarambi - MG

Município de Itacarambi – MG

Além do impacto na pesca, Siqueira conta que a barragem de Sobradinho é responsável pela evaporação de uma enorme quantidade de água do rio. “O lago de Sobradinho é uma das maiores aberrações criadas no período militar. Possui um imenso espelho d’água de baixa profundidade e altas taxas de evaporação de água, atingindo 250 m³/s, o que corresponde a mais de três vezes a vazão prevista no projeto de integração do São Francisco com bacias do nordeste setentrional”. Ele explica que essa evaporação representa ainda o volume necessário para o abastecimento anual de uma população de 144 milhões de habitantes. “Um exemplo concreto de desperdício”, conclui o autor.

 

Ao todo, José Siqueira participou de 212 expedições pelo Vale do São Francisco, entre julho de 2008 e abril de 2012 com uma grande equipe de pesquisadores, mapeando a flora do entorno do rio através de um projeto exigido pelo IBAMA para o licenciamento das obras da transposição do São Francisco. Depois das pesquisas, a equipe acabou produzindo o mais completo diagnóstico das mudanças provocadas pelo homem, tanto nas águas do Velho Chico quanto na vegetação que o circunda.

 

Analisando a atual relação das comunidades com o rio, Siqueira não percebe uma mudança expressiva de postura. “Rico e pobre proprietários de terras nas margens do São Francisco lidam da mesma forma com o rio. Hoje, residências que valem meio milhão de reais e contam com alta tecnologia de segurança e mobiliário foram concebidas com sistema hidrossanitário arcaicos que contaminam os lençóis freáticos e o próprio rio. O uso tímido de energia solar e eólica e o raro reaproveitamento de água denotam uma percepção de que os recursos seriam inesgotáveis”. O professor também alerta sobre os impactos da agricultura intensiva no vale do São Francisco e os efeitos do mau uso do solo que provocam a desertificação da caatinga.

 

Segundo o pesquisador, além de embasar pesquisas voltadas para tecnologias de recuperação desse bioma, os diagnósticos servem para nortear novas políticas públicas que prezem pelo desenvolvimento econômico com sustentabilidade. “Vamos fazer outra Sobradinho? Não. As cidades que ficaram debaixo d’água por causa dos represamentos do Rio São Francisco perderam histórias, vidas, sítios arqueológicos inteiros”, defende o professor.
“Em síntese, posso dizer que o caminho a ser seguido para viabilidade do São Francisco como modelo de desenvolvimento para outras regiões é a base científica sólida. Investir em recursos humanos, aporte de recursos financeiros para ciência, tecnologia e educação básica”, emenda.

Captura de Tela 2013-08-25 às 22.39

 

Saiba  Mais:

Cinema no Rio

Confira os depoimentos registrados durante a oitava expedição Cinema no Rio
http://cinemanoriosaofrancisco.blogspot.com.br

 

http://vimeo.com/zenoliafilmes

 

Flora das Caatingas

Para saber mais sobre o livro Flora das Caatingas leia matéria:

http://www.oeco.org.br/reportagens/26520-uma-nova-visao-das-caatingas-do-sao-francisco

 

Mais imagens incríveis

FESTIVAL MUNDIAL DE CIRCO 2103CAXAMBU, 26_07_2013FOTO: ANDRE FOSSATI/AGENTZ 7_Cine_Rio_S_Francisco_2012_Ponto_Chique_MG©Andre_Fossati0208 574647_385469038151215_2065283167_n CINEMA NO RIO SAO FRANCISCO 8 EDICAO BARRA DO PACUI MG 01_09_2013 FOTO: ANDRE FOSSATI CINEMA NO RIO SAO FRANCISCO 8 EDICAO BARRA DO PACUI MG 01_09_2013 FOTO: ANDRE FOSSATI CINEMA NO RIO III. MORPARA.BARRA-BA, 18/08/2006. FOTOS: ANDRE FOSSATI. matiascardoso_andrefossati_28 pmarariadacruz_andrefossati_47

 

O enganador

setembro 23, 2013 2 comentários

Crônica - O enganador

Ela pediu um texto meu que a ajudasse a esquecer a dor que sentia. Algo que eu já tivesse escrito. Mas o que pode uma literatura mesquinha e deprimida contra a dor que se sente na pele, contra o dedo na ferida?

Pobre de mim, inocente nas ciências da cura, de repente me vi na situação do médico cubano chamado aos rincões onde outros médicos ainda não foram.

Meu ideal seria escrever um texto como o que Rubem Braga quis. Mas parece que nem ele conseguiu.

Então como poderia ajudá-la se, inconformado, o que mais faço é justamente requentar minhas próprias queimaduras, revirar gavetas, levantar areia do fundo do mar?

Mergulhamos em águas profundas e frias, com a sensação de que o silêncio é dentro da gente – apesar do coração que não desiste. A luz que corta o azul escuro dessas águas e nos apresenta tantas cores é a mesma que ilude e não deixa ver à distância. As esperanças flutuam como bolhas nessa claridade renitente, se espalham e se perdem de vista.

Todos nós, desiludidos, incompreendidos e perdidos em geral, percebemos durante esses mergulhos que maior que a sensação de silêncio é a de estarmos sozinhos. Somos multidão, mas estamos sozinhos. E quem não está? Se enfiarmos o pé na lama, somos nós que devemos querer tirá-lo de lá. Se entrarmos num buraco ninguém nos puxa se não quisermos sair. Se mergulharmos atados a pesos por nós que nós mesmos atamos, quem poderá desatá-los?

Sentimos muito – porque não se engana a dor. Não há guarda-chuva contra esse granizo que procura nossas cabeças, não há anti-histamínico contra esse enjoo nem analgésico para o coração. Lá no fundo do silêncio azul desse mergulho procuramos a dor. Queremos conhecê-la porque não senti-la provaria que não fomos capazes de amar. E não ser capaz de amar seria como não acordar daquele sonho em que caímos num buraco sem fundo.

E sentimos muito também porque depois do mergulho nessa dor – tão de repente quanto o sol que sai de trás das nuvens quando ainda ouvimos as últimas gotas de chuva caírem das árvores – voltamos à tona, respiramos o ar limpo e dizemos “pronto”.

Então, amiga minha que se move à distância, dança a mesma música que eu, respira fundo e sonha, ouça você ou não, exista você ou não, te digo com todo o coração que me resta: não vá muito fundo nessa ideia de que a vida não presta. Na história do mundo somos menos do que grãozinhos de areia, mas às vezes até a areia pode brilhar.

Por Danilo Gonçalves

Vermelho escarlate

Conto - Vermelho escarlate

A persistência da memória – Salvador Dalí – 1931

Ela achou que era vermelho escarlate. Talvez fosse apenas vermelho, mas a memória tem vantagens sobre a realidade: faz e desfaz o passado do jeito que bem entende. E agora a memória antiga estava presa no seu apartamento. Voando no banheiro de azulejos brancos.

Quando pequena morria de dó de ver o passarinho se debatendo na gaiola. Nem era só uma gaiola, era maior, chamavam de viveiro. Mas pra quem sabe voar, qualquer teto é prisão.

Era uma Pipira-vermelha macho, claro, porque a fêmea era muito sem graça.

“Por que sem graça?”

E seu pai respondia peremptório: “Porque a fêmea tem cor de nada”

Afirmação triste que fez com que ela demorasse alguns anos pra aceitar sua própria brancura sem atrativos. Até que descobriu que o macho só era colorido pra que conseguisse chamar atenção da fêmea, que ia escolher pra si o mais bonito.

Cansada de vê-lo sozinho, voando impaciente dentro do viveiro, quando ainda nem sabia o que era arquitetar, planejou o crime perfeito que causou o desgosto maior em seu pai: pediu para limpar a gaiola à noite, como ele sempre fazia, e deixou a portinha de arame aberta, esperando que o vento animasse o passarinho a voar pra onde bem entendesse.

Agora, uns quinze anos depois, um novo pássaro vermelho vinha procurá-la. Quantos anos vive um passarinho? Talvez até fosse o mesmo. Tinha certeza que era o mesmo. Talvez quisesse culpá-la por tê-lo deixado solto à própria sorte. Nunca saberá. Percebia apenas que trancado no banheiro estava tão impaciente quanto na gaiola.

O problema é que agora ela morria de medo de quase todos os animais domésticos. Algum trauma por não consentir que vivessem presos e, ao mesmo tempo, uma culpa por não oferecer uma vida um pouco mais confortável àqueles que perambulavam pelas ruas da cidade.

Demorou um bom tempo só pra se recompor do susto que levou ao entrar no banheiro claro e ver o bichinhozinho vermelho escuro pousado na pia, talvez descansando das primeiras tentativas de encontrar uma saída.

Precisava ser prática. Não conseguia. Morava sozinha. Teria que chamar alguém que a ajudasse. O porteiro? O zelador? Às seis e meia? Fez um coque e decidiu sair de casa sem tomar banho. Deixou a chave com o porteiro, pediu para que alguém visse o que podia ser feito e foi viver seu dia.

Lembra da sensação de angústia com a imagem do passarinho vermelho como um coração preso naquela branquidão hospitalar do seu banheiro. Ao meio dia saiu para almoçar. Voltava sempre dez minutos antes de dar uma hora para ter tempo suficiente para escovar os dentes. Às três e vinte e três sentiu o peito apertar e ligou para seu prédio para sondar se estava tudo certo.

“Tudo certo, sim senhora”

Suspirou e desligou o telefone. Mas o coração continuava apertado.

Às 17h55 começou a se preparar para ir embora. Chegou em casa às sete e meia – lembra nitidamente de todos os horários – e mesmo com receio quis saber como haviam resolvido o seu problema. A resposta foi curta e grossa: o bichinho tinha morrido trancado no banheiro. Só tinham tido o trabalho de tirá-lo de lá.

Acordou atrasada e cansada.

Tinha sonhado com a infância e com aquela situação absurda de ter um pássaro trancado em seu banheiro.

Talvez durante o trabalho, cumprindo os compromissos do dia, ela não consiga perceber. Talvez precise de mais algumas noites, talvez alguns meses. Mas vamos dar tempo a ela e deixar que compreenda por conta própria o que sonhou. Talvez um dia entenda que aquele sonho não era sobre um passarinho que tinha ficado trancado num banheiro, e sim sobre seu próprio coração, preso dentro das horas.

Por Danilo Gonçalves

Flor no canteiro de obras do meu coração

julho 23, 2013 10 comentários

Foto de Murilo Moraes

Imagem de Murilo Moraes

– Então você é terra. – Ela me disse depois de perguntar o ano em que nasci. E completou: “Eu também”.

Não tenho a menor ideia do que isso representa no horóscopo chinês, mas concordo desde o momento que ouvi, numa noite em que nos encontramos na copa do escritório por ficarmos presos até mais tarde esperando uma chuva forte passar.

Concordaria se me chamasse de bêbado, de vagabundo, de nerd, infame, tarado, fracassado, velho, moleque. Concordaria se dissesse que escrevo mal, que não tenho talento nenhum, pra nada. Naquela noite concordaria até com a corda que me enforcaria.

Em verdade, já me sinto terra, firme, apegado às pedras da crosta, ao chão, à fina camada onde a vida se desenvolve. Concordo com ela. Devo ser. Sou. Mas sendo terra, é essa a sensação que eu devia sentir? A sensação de ser terra e mesmo assim perder o chão?

Me sinto terra, e tão completamente terra que também me sinto difuso na poeira vermelha levantada pela ventania que algumas perguntas provocam.

Mas, porque sou terra, também me apego aos sapatos de quem cruza comigo, e assim vou indo a lugares onde nunca estive.

Foi assim que me agarrei aos sapatos dela e cheguei a sua casa. Velei seu sono no canto do quarto quieto, esperei que acordasse, se vestisse e saíssemos para trabalhar. Usava uma bolsa pequena a tiracolo: ela não é dessas mulheres que perdem a vida no labirinto das minúcias. Ela é leve. Mas diferente da chuva leve que vai cair daqui a pouco e me pôr quieto, ela é vento e, portanto, me leva à altura típica das vertigens.

Fui com ela ao trabalho, mas não percebeu minha presença durante o dia, enquanto cumpria a rotina diária que todos cumprimos, construindo castelos de cartas. Sem ser notado, estive com ela durante as conversas no almoço, durante o choro à tarde, sozinha, no banheiro. E nem pude dizer o quanto ela ficava bonita – sutileza das almas delicadas – chorando aquele choro quieto.

Voltamos pra casa sorrindo, ouvindo amenidades, nos misturando às pessoas como se ela fosse comum. Na multidão nosso segredo está a salvo. Será? Seremos? As perguntas são sempre maiores que a vida.

Ela não sabe de mim, não me vê. Se vê, não repara. Não tem por mim o cuidado que, sendo terra, tenho por ela, flor no canteiro de obras do meu coração. E o pior é que reparei que tenho regado essa flor, que talvez seja um girassol olhando sempre pra alguma coisa mais importante. Vá lá que o sol acabe com a noite, mas há quanto tempo ele brilha sem dar por nós?

Ver e não ser visto é a primeira dor dos apaixonados que, dolentes, caem debalde nas mesas de bares, nas ruas e nos abismos. E o que é viver senão andar sempre à beira de abismos?

Sonho sem cores em uma noite cheia de estrelas: eu terra, ela girassol, esperando pela chuva que nos alimenta. Misturados por outro elemento, talvez a gente se reconheça.

Por Danilo Gonçalves

%d blogueiros gostam disto: